segunda-feira, 23 de março de 2015

O Guerreiro Moderno

Escrito pelo Diretor do Grupo Projetar Roberto Guimarães.
“A meta do arqueiro não é apenas atingir o alvo; a espada não é empunhada para derrotar o adversário; o dançarino não dança unicamente com a finalidade de executar movimentos harmoniosos. O que eles pretendem, antes de tudo, é harmonizar o consciente com o inconsciente.” (Diasetz T. Suzuki, Introdução do livro “A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen”, de Eugen Herrigel).
Quando pensamos em artes marciais na antiguidade, conseguimos entender facilmente a dedicação com que aqueles grandes guerreiros de outras épocas praticavam suas disciplinas, afinal elas melhoravam suas habilidades para os enfrentamentos que inevitavelmente aconteceriam em suas existências. Por mais exigentes que fossem os treinamentos, por mais longas e constantes que fossem suas práticas, havia um propósito que justificaria tamanha aplicação: a luta pela sobrevivência.
Se tentarmos trazer essas vivências para os dias atuais, não encontramos, em um primeiro momento, razões que nos levem a seguir de forma tão disciplinada essas artes. E por que perder tanto tempo com elas se não dependemos delas para sobreviver, não dependemos delas para nada? Precisamos apenas de dinheiro suficiente para garantir a comida em nossas mesas e um teto sobre nossas cabeças, não é certo? Realmente não dependemos das artes márcias, nem das artes em geral, mas precisamos mais delas do que podemos imaginar.
Em nossa primeira infância,período que se estende desde o nascimento até aproximadamente os cinco anos deidade, começamos a descobrir o mundo pelas percepções sensoriais: o tato, a visão, o olfato, o paladar e a audição. Dependemos, porém, da participação de outras pessoas no processo de nos descobrir, necessitamos de seus toques para que entendamos o nosso ser, os nossos limites físicos. Com o ritmo de vida acelerado, muitos pais necessitam trabalhar e deixar os filhos em berçários em período integral, o que diminui o tempo de interação entre eles. Já nesse momento podemos ver, como resultado, crianças que não se conhecem adequadamente e que se tornam, muitas vezes, inseguras, dependentes, retraídas, entre outros.
Nesta fase também dependemos da fantasia para assimilar os valores morais, as relações sociais e o mundo em geral. Com o aumento da insegurança, as crianças já não brincam tanto na rua,com o pouco tempo os pais já não leem mais os contos infantis antes de colocaremos filhos para dormir. Enfim, as possibilidades de vivenciar essas fantasias estão cada vez mais escassas, e novamente a compreensão de si e a percepção do mundo e da sociedade se veem comprometidos. Como tentativa de compensar a ausência, os pais oferecem uma bem-vinda superproteção, na qual os limites já não importam mais e a disciplina tampouco. Mas há sempre a desculpa de que esse excesso de zelo é demonstração de carinho, um “carinho” sufocante que impede o indivíduo de criar soluções por si só, retardando a formação de ferramentas para enfrentar os conflitos que virão.
E então ingressamos na escola. A escola, que deveria promover a valorização do professor como referência, como aquele que permite às crianças novas identificações de autoridade além das parentais e como aquele que faz o elo do indivíduo aos saberes praticáveis, é justamente a instituição que o desmoraliza e limita seu poder de atuação quando pressionada pelos seus clientes, os pais. Assim o professor se torna apenas o transmissor da informação, de acordo com programas cada vez mais massificados e focados exclusivamente no conhecimento. Dessa forma, nos vemos ainda mais limitados e afastados de nossas individualidades. Aprendemos que para não sofrermos repressões de colegas, não podemos ser diferentes, não podemos ter vontade própria nem destaque na multidão. E, nesse pequeno universo social,entendemos as diferenças como ameaças ao que está estabelecido, ao igual, ao comum. Crescemos vendo nossas possibilidades de expressão se esvaindo.
Se na escola aprendemos que o conhecimento é a base da educação, então os aspectos racionais devem ser a base do ser humano. E com o foco no racional, nossas emoções e outros elementos subjetivos, humanos, devem ser descartados, armazenados em um profundo poço como qual só teremos contato quando o vazio de nossas existências se apresentar debaixo de nossos pés. As emoções, tidas como fraquezas, não nos trazem benefícios práticos, apenas nos desestabilizam e nos retardam o avanço nessa incessante competição que a vida se tornou. Em casa, elas são apenas fontes de problemas que os nossos pais não querem enfrentar. A melhor solução então é suprimi-las ou simplesmente ignorá-las.
E vem a adolescência, período em que estamos tentando descobrir quem seremos quando adultos. Período em que temos que escolher o que queremos fazer de nossas vidas. Mas como escolher senão temos ideia do que queremos, já que ainda não fazemos ideia do que essa vida adulta é e nem que responsabilidades trará? E ainda por cima, não sabemos quem somos, pois aprendemos a nos afastar de nós mesmos. A realização pessoal não tem importância nesse contexto, ela não garante uma vaga no vestibular, e,portanto, não garante a satisfação daqueles que sustentam essas fábricas de vestibulandos. E com a grande procura pelos cursos universitários que mais geram retorno financeiro ou status, estudar exaustivamente parece ser a única saída para vencer a acirrada competição, mesmo em detrimento da saúde. Não nos importamos em sobrecarregar a nossa “máquina” desde que possamos apresentar bons resultados nas provas e consigamos saciar as ansiedades de realização de nossos pais e nossos colégios ao poderem nos apresentar à sociedade como os promissores resultados de seus esforços. Acumulamos, assim, mais frustrações, e possuímos poucas válvulas de escape nessa corrida para encontrar uma identidade que não tem relação com nosso verdadeiro eu.
A vida adulta se apresenta, e com ela todas as esperanças de que um bom cargo e um bom salário vão resolver as nossas aflições. Como escreveu o Grão-Mestre Francisco Andrés Taboada em seu livro Filosofia da História, “E é assim que temos uma sociedade com uma atividade alocada a partir da revolução industrial, e santificada pelo puritanismo que contempla o enriquecimento individual como uma dádiva ou favor divino, e, sob esta premissa, a civilização material passa a ser uma condição de dignidade moral”. Saltamos de emprego em emprego, muitas vezes de relacionamento em relacionamento, mudamos a casa, mudamos o carro, mudamos o nosso rosto, o nosso corpo, e continuamos, sem direção. Sempre em constante disputa com o próximo,não contamos com a ajuda mútua, e essa competitividade, que alimenta o individualismo, torna-nos sozinhos na multidão.
A instabilidade de tantas mudanças nos obriga a lidar com uma constante sensação de insegurança e de abandono. Constatamos tardiamente que o grande volume de informação que acumulamos não foi suficiente para nos posicionar em todas as esferas de nossas vidas. E, quando a constatação de que não realizamos nada em nossas vidas, de que o tempo que passou não agregou mais do que patrimônios materiais, aquele vazio aparece. Mas não dispomos de ferramentas para combatê-lo, pois, não conhecemos sua natureza.Tentamos encontrar os culpados, sempre buscando no externo a resposta, e, dessa forma, acabamos ainda mais afastados da possibilidade de trilhar o árduo, porém duradouro, caminho do autoconhecimento, que nos permite o reequilíbrio de todos os nossos aspectos, o físico, o emocional, o mental e o espiritual.
Somos induzidos a tomar o caminho mais curto, o mais imediato, que promete uma vida de realizações ilusórias baseada em um comprar desmedido, um ostentar sem necessidade, um drogar-se ilimitadamente, um perde-se de vez. E, de fato, nos fazem acreditar ser esse o mais seguro. É, porém, apenas aquele que alimenta os interesses de enriquecimento de alguns poucos que estão no comando. E, se não o trilhamos e continuamos alimentando o sistema, somos descartados, como peças indesejáveis de um grande mecanismo. Em vez de tentarmos mudar essa triste forma de encararmos o mundo, adotamos nós também a “cultura do refugo”, simplesmente jogando fora o que não se enquadra, e cuja conciliação nos exigiria esforços adicionais aos quais nunca estamos dispostos. Mas, se até a nossa ciência nos induz a ignorarmos tudo o que ela não é capaz de qualificar e quantificar, quem somos nós para nadar contra a maré?
Talvez em algum momento percebamos os efeitos do prolongado de nosso afastamento da realidade. Talvez percebamos que não podemos existir de forma plena ao valorizar partes de nosso ser em detrimento de outras. Não podemos ser saudáveis se destruímos nossos corpos em busca de a beleza “perfeita”, mas mesmo assim nos utilizamos de inúmeras cirurgias plásticas, de cargas excessivas de exercícios físicos lesivos ou de regimes absurdos que não nos garantem a nutrição correta. Alimentamo-nos mal, dormimos pior ainda, sempre com pressa de algo. Não podemos ser saudáveis se não somos capazes de enfrentar nossas emoções, de tomar conhecimento de nossos medos e frustrações, mas mesmo assim nos escondemos em nossos vícios e compulsões, nos isolando e dificultando cada vez mais a formação de vínculos sólidos. Não podemos ser saudáveis se absorvemos mais informações do que somos capazes de vivenciar, e que não passarão de elaborações intelectuais sem propósito, mas mesmo assim fazemos cursos e mais cursos de “formação” para atender pré-requisitos de mercado, falamos mais línguas do que vamos precisar usar e nos posicionamos sobre o que supomos conhecer, tomando partido e defendendo bandeiras para talvez encontrar alguma explicação lógica sobre o porquê de estarmos aqui. E nem assim conseguimos respostas suficientes para eliminar o maior dentre todos os males da humanidade, a ignorância de si mesmo. Ao ignorarmos quem somos e o que queremos, não podemos pretender conhecer o outro e suas necessidades. Consequentemente, não conseguiremos construir uma sociedade equilibrada composta por indivíduos que não o são.
Somos guerreiros modernos tentando lutar contra um mal invisível, ilusório, que nos distorce a visão da realidade e nos impede de encontrar as características mais profundas de nossas personalidades. E, diferentemente dos guerreiros antigos, para combatê-lo não podemos nos utilizar de pés e mãos, mas de valores que nos deem coragem para enfrentar aquilo que não queremos ver, o nosso próprio reflexo livre de máscaras.
Quero esclarecer que não estou,com o discurso acima, defendendo a ideia de que não devemos pesquisar ou estudar e deixar o conhecimento técnico de lado. O conhecimento é fundamental,mas o formato que usamos em sua transmissão não é saudável. Primeiro pelo fato de que raramente eles são explicados além da técnica de forma ao aluno poder associar tais conhecimentos e sua importância à sua vida. Por exemplo, eu vejo muitos indivíduos com dificuldades nos conceitos matemáticos, e acham que a aplicação desses conceitos em suas vidas é inútil. De que adiantou então terem lhes ensinado fórmulas e fórmulas? Quando mostro para eles que a matemática se encontra em todos os momentos da vida, como no entendimento dos cálculos de financiamentos de casas ou carros, como na administração financeira familiar ena melhoria do raciocínio lógico que a matemática estimula, como na visualização de possíveis soluções de problemas diversos e na elaboração de estratégias, esses indivíduos então encontram sentido no que a escola falhou em mostrar. 
Segundo: o programa de matérias é único e avança de acordo com o ritmo do mais lento, estamos não só desestimulando os mais capazes a avançarem no ritmo que poderiam, tornando o ensino maçante, como inibindo aqueles que levam mais tempo para se desenvolver. E muitos desses alunos tidos como mais lentos,se lhes for dado tempo para o entendimento de determinados conceitos, muitas vezes, tornam esses conhecimentos sólidos e passam a evoluir com mais velocidade futuramente. O importante é respeitar o ritmo individual para ter melhor proveito. 
Além disso, com leis que obrigam as escolas do ensino público a aprovar a todos, independentemente do grau de assimilação dos conhecimentos,com base talvez no argumento de que os alunos repetentes tiram a vaga do outros que estão por vir ou que a reprovação pode causar prejuízos emocionais, estamos iludindo esses indivíduos ao conferir-lhes um diploma que representa uma capacidade que eles não possuem, e o seu ingresso no mercado de trabalho irá cobrar o que não poderão oferecer. Além disso, ter alunos matriculados em séries que não lhes correspondem também representa a má utilização de vagas, que poderiam ser oferecidas para quem é merecedor. Estamos, com isso, desvirtuando a noção de merecimento por esforço individual. 
Outro problema está na forma como aprovamos os alunos, uma vez que, ao aplicarmos testes que tornam aptos aqueles que atingem um determinado percentual de acertos, não garantimos que os conhecimentos foram devidamente assimilados. Se, em dez perguntas, o aluno acertou nove, não nos preocupamos com aquela uma que ele errou, e nem por que errou. E esse erro pode estar relacionado a um conhecimento cujo entendimento será pré-requisito nos conteúdos futuros. 
E terceiro, a questão do produtivismo escolar, que reflete a preocupação das instituições de ensino em preparar o aluno para o mercado de trabalho, mas não para a vida. Ao concluírem o colégio,quanto mais alunos de determinada instituição fizerem parte dos índices de aprovações em vestibulares concorridos para cursos universitários reconhecidos,maior visibilidade terá a instituição, pois associamos a quantidade de aprovações à qualidade de formação promovida pela escola que os formou, mesmo que essa formação não se reflita em melhorias de conduta e comportamento em sociedade. 

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