quinta-feira, 14 de março de 2019

Suburbicon - Bem-Vindo ao Paraíso: a demonização coletiva da diferença

Artigo escrito pela psicóloga Fernanda Guimarães e pelo especialista em sociologia e educação Roberto Guimarães.

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AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS.

Suburbicon é um filme que retrata as dinâmicas sociais em uma comunidade de mesmo nome, no ano de 1959. É apresentada como a cidade modelo estadunidense, muito bem planejada e organizada, na qual as pessoas são educadas e comprometidas com o bem comum, há segurança, enfim, onde se pode ser feliz.
A magia da cidade se mostra frágil, porém, quando uma família composta por afrodescendentes decide comprar uma casa em Suburbicon. A estranheza foi sentida por praticamente todos os habitantes, considerando que somente na década de 50 as leis de segregação raciais começaram a ser revogadas nos Estados Unidos da América.
A feliz comunidade, atormentada por aqueles que lhes eram diferentes – vale notar que o diretor retrata a família recém-chegada e rejeitada como um grupo de pessoas comuns, com anseios e conduta similares a quaisquer outras famílias –, decide expulsá-los dali. No mercado cobram mais caro deles pelos mesmos produtos, os vizinhos cercam as próprias casas somente na divisa com o terreno deles para lhes tirar a vista, atormentam-nos com barulho e gritaria constantes, dia e noite, covardemente tornando suas vidas impossíveis.
Enquanto a atenção da comunidade de “bem” está voltada para os inimigos de cor, um crime hediondo acontece. Um homem e sua cunhada, ambos brancos, decidem assassinar a esposa e irmã gêmea, respectivamente, ganhar o prêmio do seguro e viver livremente o amor romântico que sentiam um pelo outro. 

Apesar da contravenção promovida por seus iguais, nada parece importar mais aos concidadãos do que a missão de expulsar a família de estranhos dali. O filme deixa claro um aspecto muito recorrente nos agrupamentos sociais que são denominados comunidades. A ideia de comunidade, ou seja, a de constituir um grupo social pela promoção do convívio de pessoas comuns ou afins ou semelhantes ou iguais, possibilita uma série de benefícios, como já mencionamos em artigos anteriores.
Embora não seja necessariamente verdade, como deixa transparecer o filme, pode-se mais facilmente acreditar que pessoas similares e que vivem vidas concordantes possuem objetivos iguais, um código moral próximo, enfim, que são mais previsíveis para as outras, o que reduz a desconfiança sobre as suas intenções e ações. As relações ficam, assim, limitadas, aparentemente, ao confortável universo do conhecido.
Porém, na mesma medida, verifica-se uma série de prejuízos. Se de um lado, a conciliação de visões de mundo pode resultar em segurança e aproximação empática, a diferença à qual pouco se habitua pode reduzir as capacidades de socialização e de tolerância ao que excede o familiar.
Mas o problema que queremos mostrar neste artigo é o seguinte: uma comunidade se constitui com base em premissas generalizáveis a todos os seus integrantes, ou seja, prescreve um conjunto de regras que, supostamente, representa o caráter daqueles que habitam ali. Isso significa que terão como modelo de vida os ideais compartilhados que definem a comunidade e que as identidades serão formadas com referência a tal modelo. 
Por exemplo, a ideia de felicidade de Suburbicon se baseia, entre outros, na cordialidade e na religiosidade e, por consequência, deixa de fora a agressividade e o pecado. Forma-se no consciente coletivo a noção ideal de indivíduo exclusivamente generoso e religioso, nunca agressivo e pecador. 
Tais prescrições ou normas tendem a normalizar ou limitar as individualidades, convertendo-as, muitas vezes por coerção, em indivíduos padronizados. Todos tem que ir à missa aos domingos, mesmo que não queiram, senão o que as pessoas vão pensar? Como todos os sujeitos, por mais parecidos que sejam, diferenciam-se do restante em algo, na comunidade, cedo ou tarde, reprime-se ao limite impulsos e movimentos de alguém. Pensamentos ou ações se chocam com as premissas e as violações acontecem, mesmo que somente em desejo, não em ação concreta.
A violação, por menor que seja, fere a imagem que cada violador quer e pode fazer de si, a de integrante da comunidade e, portanto, capaz de se adequar às regras, mesmo quando ninguém mais além do próprio agente toma conhecimento. Apesar do psiquismo do indivíduo tender a negar ou distorcer o fato para protegê-lo de se conscientizar de sua condição de violador, sentimentos como a culpa, o remorso, a vergonha, entre outros, ficam recalcados, ou seja, não são simplesmente esquecidos; ficam presentes e afetam tanto as ações e o juízo quanto mais perto ficam de serem desenterrados e terem suas origens descobertas.
Se o indivíduo não consegue elaborar tais sentimentos “culposos” de maneira direta, pelo enfrentamento da realidade e pela assunção da responsabilidade, facilmente o psiquismo transfere para outras pessoas as cargas emocionais geradas. Às vezes a desconfiança inexplicável atribuída a alguém pode ter origem na própria imoralidade que não permite confiar sequer em si, a agressividade dirigida ao outro, independentemente de seu comportamento, pode ter como causa a inveja e refletir a insatisfação e desapontamento consigo mesmo, e assim por diante.
Coletivamente, transferências dessa natureza tendem a acontecer pela atribuição de tudo o que é tido como ruim pela comunidade e que ela quer expurgar para figuras que representem as maiores diferenças possíveis aos aspectos comuns de seus integrantes, tal que haja uma completa separação entre aquilo que é desprezível e os habitantes e modelos adotados na comunidade. Canaliza-se aspectos subjetivos em caracteres objetivos, demonizando-os: determinada cor passa a indicar inferioridade intelectual, certa orientação afetiva e sexual carrega a promiscuidade, a escassa condição financeira reflete a indisciplina e a preguiça, entre outros. 

Assim, fica mais fácil acreditar que o indivíduo “comum”, aquele que está de acordo com o modelo, é bom e que, se algo ameaça os valores da comunidade, não é a própria fragilidade estrutural do grupo, mas a diferença com a qual não se sabe lidar. O resultado: a inocente família afrodescendente foi julgada e culpada pelos crimes de seus juízes. Vale lembrar que o filme foi remotamente baseado num incidente ocorrido em 1957 em Levittown, Pennsylvania, no qual uma família se mudou para uma comunidade até então composta por pessoas de cor branca, exclusivamente, o que gerou tumulto e violência pelo racismo.

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