terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Private Life - Mais Uma Chance: o peso do fracasso na gestação

Artigo escrito pela psicóloga Fernanda Guimarães e pelo especialista em sociologia e educação Roberto Guimarães.


AVISO: o texto abaixo contém SPOILERS.

Mais Uma Chance é um filme que narra a difícil jornada de um casal com dificuldades em conceber filhos. Após algumas tentativas fracassadas de realizar a gestação por inseminação artificial, eles consideram a possibilidade de utilizar os óvulos de uma doadora, procedimento que teria chances aumentadas de sucesso.
Inicialmente, a esposa rejeita esta maneira de engravidar por que a fecundação não aconteceria com seu próprio material genético, apesar da gestação ser realizada por ela. Fica brava com a insistência do marido e alega que não se sentiria parte do processo e não se veria como a verdadeira mãe.
O desejo de ter filhos, porém, logo os faz aceitar tal ideia. Iniciam uma busca na internet por doadoras, mas ficam desconfortáveis com a impessoalidade e “frieza” dos sites, sentidos pelo casal como mercados de óvulos. Quando uma jovem amiga do casal decide passar um tempo na casa deles, decidem convidar a menina para ser a doadora. Apesar das pressões da família, ela concorda.

Ao longo do filme, fica claro o peso que a corrida pela gravidez gera para o casal. Cada tentativa é muito custosa financeiramente, o que os leva a pedir empréstimos. Cada fracasso reforça a ideia de inaptidão e abala emocionalmente os cônjuges, não somente pela auto depreciação mas pela redução da esperança de sucesso conforme as possibilidades vão se tornando escassas. Passam a viver praticamente em função das rotinas e calendários dos longos tratamentos de preparação para a inseminação, esvaziando não somente seus papeis de marido e mulher, mas reduzindo toda a vida às tentativas de gestação.
Alguns podem se perguntar por que eles continuaram tentando apesar de tanto sofrimento e simplesmente não desistiram de ter filhos biológicos. São vários os motivos que impelem a essa busca.  Os sistemas de reprodução dos seres humanos impulsionam cada um de nós ao ato sexual e à procriação. Pode-se verificar sua potência nos frequentes comportamentos motivados pelo instinto sexual, mesmo quando contrários aos ditames da moral e da lei, como nas recorrentes traições ao cônjuge em relacionamentos monogâmicos, por exemplo. Assim, muitos se sentem completos e realizados apenas quando seus genes podem ser propagados, ou seja, quando seus sistemas reprodutivos “cumprem seu papel”.
Há casos em que a disseminação genética é vista ou sentida, mesmo que de maneira inconsciente, como a forma de superar a finitude da vida, principalmente quando o indivíduo não se sente convencido do valor que esta pode ter por si mesma e atribui à descendência a função de deixar marcada sua existência, de lhe confirmar sua utilidade. Isso pode levar a extremos em que um indivíduo gera grandes números de filhos apenas para se ver representado em sua prole. 
Além disso, há fatores culturais que criam a necessidade de gerar descendentes. Nas sociedades estamentárias, em que pesava a hereditariedade como forma de manutenção do poder, a mulher tinha um papel bem definido a cumprir: gerar o filho – homem, de preferência – que pudesse suceder o pai na liderança e controle do Estado. Mulher boa era, portanto, mulher capaz de engravidar. Homem forte, potente, era homem capaz de espalhar sua “semente”. Apesar de atualmente não se verificar as mesmas dinâmicas nas relações de poder, ainda se sofre com os vestígios dessa cultura. Basta ver que as riquezas de uma família ainda são automaticamente transferidas aos herdeiros legais, nos quais estão incluídos os filhos biológicos.
Outro fator cultural que se impõe é o religioso. Quando uma religião como a católica, em relação à constituição da família, possui uma diretriz resumida como “crescei e multiplicai-vos”, os cônjuges podem compreender daí que a família somente é legítima quando pode gerar filhos. Muitos padres, ainda hoje, orientam os casais a manterem relações sexuais apenas com a finalidade da procriação, o que reforça tal visão.
Quanto mais uma sociedade valoriza a família que se constitui com filhos biológicos, mais reforçada é a ideia de que realização pessoal depende do cumprimento dessa etapa. Não tê-los é uma ofensa aos preceitos e uma negação dos ideais de felicidade coletivamente constituídos. 
Assim, aqueles que apresentam alguma impossibilidade de ter filhos tendem a se sentir culpados por não poderem concretizar suas funções biológicas e sociais. Tal culpa pode ser atormentadora e levar a insistir nas promessas do mercado da fecundação.
Infelizmente, poucos casais decidem pela adoção. Há inúmeras crianças que são abandonadas pelos pais ou que não os possuem e que estão fadadas a crescer carentes de figuras parentais caso não sejam adotadas. Além disso, dado o problema grave da superpopulação que enfrentamos atualmente, substituir uma nova gestação pela adoção poderia reduzir, mesmo que minimamente, a curva de crescimento populacional.
No filme, ao final, o óvulo doado pela menina não fecunda e novo fracasso é sentido pelo casal, que constata em uma discussão o quanto haviam desperdiçado de suas vidas, talvez desnecessariamente, durante os longos anos de tentativas infrutíferas.

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